UMA QUESTÃO LEVANTADA
A revista AU (Arquitetura e Urbanismo)da Editora Pini, levantou a seguinte questão:
Fato & Opinião
O arquiteto deve ter a obrigação de acompanhar a execução da obra que projeta?
A maioria dos profissionais concorda: a presença do arquiteto responsável ajuda, e muito, no desenvolvimento de um projeto de qualidade. O que falta, então, para que haja maior envolvimento nessa fase? A preocupação do contratante, um modo de contratação que contemple todas as fases do empreendimento e a visão de que, mais do que obrigação, a presença do arquiteto é uma necessidade são apenas alguns dos argumentos apresentados. AU conversou com arquitetos e engenheiros para saber a opinião desses profissionais sobre o tema. Confira as respostas.
De fato, as respostas de profissionais mais do que competentes, só indo a revista para conferir.
Mas a convocação, quase desafio, serviu para me dar o mote do post.
Isso posto, metido que sou, mais do que isso, Arquiteto que sou, mais de 45 anos projetando e tocando obras, digo o que acho dessa “obrigação”.
Pra isso, pra dar minha opinião, e conseguir explica-la, justifica-la, um pouco de estória.
“Formei-me em 1960 pela Faculdade Nacional de Arquitetura, Rio de Janeiro. Antes mesmo de me formar, já estava metido em assuntos de obras. Estagiei, comecei a acompanhá-las, desde o 2º ano da Escola e habituei-me a conviver com os “problemas” oriundos dos diversos tipos de Projetos. Desde os de Arquitetura (coisa nossa, supostamente!), até os oriundos das “mãos” de outros profissionais (suponhamos os técnicos, suponhamos os engenheiros), e as inevitáveis incompatibilidades decorrentes de uma falta de coordenação
Dentro da obra, afinal estagiário ou já formado, eu era o, digamos, Engenheiro da Obra. Impossível para nossos padrões de leitura, pelo menos naquela época, imaginar um Arquiteto a tocar uma obra. “Isso é coisa para Engenheiro”, diziam todos. Seja para assegurar uma idéia de segurança, que o Arquiteto (eternamente visto pelo consumidor como “aquele porra-louca que desenha os projetos”*) não conseguia passar, seja, até mesmo, pela própria categoria, nós, os Arquitetos que nos imaginávamos de uma classe superior, os Criadores.
”Obra, aquele espaço contaminado, operariado, material, sujeira e calor...tô fora!” Prefiro meu escritório, ar-condicionado, minha prancheta (naquele tempo existia esse apetrecho estranho, com régua Tê e tudo).
Fiquei mais de dez anos, desde o 2º ano da Faculdade, mais na obra do que na prancheta. Adquiri, por conta desse “aprendizado”, um conhecimento das coisas do PROJETO DE UMA EDIFICAÇÃO, em sua totalidade, que serviu para o resto da minha vida profissional. Mais ainda, mostrou-me, claramente, que o Arquiteto é o verdadeiro homem para tocar a obra. Melhor dizendo, para estar na obra, presente e opinante. Opinante e definidor!
Não! Não estou a falar em causa própria, seja minha, seja do Arquiteto. Falo em nome do bom andamento, do bom acabamento, do bom casamento dos tais Projetos Complementares (Estrutural, Instalações, etc), de uma boa ordenação das coisas da obra. Claro, para isso o próprio Arquiteto precisa se mobilizar, procurar conhecer os meandros e sortilégios das tais outras disciplinas que compõem o universo de uma construção, se habilitar para ocupar o lugar que, em outros centros mais adiantados, lhe é assegurado.
Simplificado que seja, meu raciocínio é lógico:
Se eu, o Arquiteto, projetei a edificação, vislumbrei todos os seus desdobramentos, consegui imaginar aquela idéia terminada, pronta e habitada, de cabo-a-rabo, quem mais poderia saber melhor como conduzi-la? Quem mais poderia entender as diversas interfaces entre os projetos técnicos e suas interferências com o Projeto de Arquitetura, gerador de toda essa “trapizonga” que se chama uma obra? Um outro profissional que pegou nosso projeto, deu uma olhada geral e lançou sua estrutura? Ou outro qualquer, que mal viu nosso projeto, nem acesso teve ao de estrutura, e fez seu projeto de instalações? Um, sem falar com o outro? Como pode dar certo?
Somente os deuses da sorte, abençoados e quase sempre presentes nas construções, conseguem desvendar tal mistério.
Divaguei, parece! Volto ao ponto.
Então, sem querer tirar o bom-bocado (será?) da boca dos “engenheiros de obra”, acho que o lugar correto do Arquiteto,não como uma Obrigação imposta a ninguém, mas como uma medida salutar e preventiva,é no acompanhamento da obra. Seja por ele projetada, preferencialmente, seja na de outro colega. Aos colegas Engenheiros, caberia uma sadia e necessária colaboração, nos aspectos mais puramente técnicos, mais detalhadamente específicos, mais imediatistas. Cabe esclarecer, tão importante quanto!”
Bom! Essa introdução à discussão, deveria / deverá gerar um monte de desdobramentos, algumas vaidades feridas, algumas discussões sobre campos de atuação invadidos, e, sobretudo, o ponto básico e crucial dessa matéria:
Quem pagaria a conta?
ACEITAM-SE (SUPLICAM-SE) SUGESTÕES E DEBATES!
*nos meus bons tempos de estudante, jovem Arquiteto, corria uma piadinha sobre o nosso perfil:
O Arquiteto, é um sujeito com olhar levemente distraído, duas ou três lapiseiras 6B no bolso da camisa, ou paletó, cheio de idéias diferentes. Algumas, inexeqüíveis!
Outros, ainda diziam que o Arquiteto era uma espécie, diferente, de lulu de madame.
Fato & Opinião
O arquiteto deve ter a obrigação de acompanhar a execução da obra que projeta?
A maioria dos profissionais concorda: a presença do arquiteto responsável ajuda, e muito, no desenvolvimento de um projeto de qualidade. O que falta, então, para que haja maior envolvimento nessa fase? A preocupação do contratante, um modo de contratação que contemple todas as fases do empreendimento e a visão de que, mais do que obrigação, a presença do arquiteto é uma necessidade são apenas alguns dos argumentos apresentados. AU conversou com arquitetos e engenheiros para saber a opinião desses profissionais sobre o tema. Confira as respostas.
De fato, as respostas de profissionais mais do que competentes, só indo a revista para conferir.
Mas a convocação, quase desafio, serviu para me dar o mote do post.
Isso posto, metido que sou, mais do que isso, Arquiteto que sou, mais de 45 anos projetando e tocando obras, digo o que acho dessa “obrigação”.
Pra isso, pra dar minha opinião, e conseguir explica-la, justifica-la, um pouco de estória.
“Formei-me em 1960 pela Faculdade Nacional de Arquitetura, Rio de Janeiro. Antes mesmo de me formar, já estava metido em assuntos de obras. Estagiei, comecei a acompanhá-las, desde o 2º ano da Escola e habituei-me a conviver com os “problemas” oriundos dos diversos tipos de Projetos. Desde os de Arquitetura (coisa nossa, supostamente!), até os oriundos das “mãos” de outros profissionais (suponhamos os técnicos, suponhamos os engenheiros), e as inevitáveis incompatibilidades decorrentes de uma falta de coordenação
Dentro da obra, afinal estagiário ou já formado, eu era o, digamos, Engenheiro da Obra. Impossível para nossos padrões de leitura, pelo menos naquela época, imaginar um Arquiteto a tocar uma obra. “Isso é coisa para Engenheiro”, diziam todos. Seja para assegurar uma idéia de segurança, que o Arquiteto (eternamente visto pelo consumidor como “aquele porra-louca que desenha os projetos”*) não conseguia passar, seja, até mesmo, pela própria categoria, nós, os Arquitetos que nos imaginávamos de uma classe superior, os Criadores.
”Obra, aquele espaço contaminado, operariado, material, sujeira e calor...tô fora!” Prefiro meu escritório, ar-condicionado, minha prancheta (naquele tempo existia esse apetrecho estranho, com régua Tê e tudo).
Fiquei mais de dez anos, desde o 2º ano da Faculdade, mais na obra do que na prancheta. Adquiri, por conta desse “aprendizado”, um conhecimento das coisas do PROJETO DE UMA EDIFICAÇÃO, em sua totalidade, que serviu para o resto da minha vida profissional. Mais ainda, mostrou-me, claramente, que o Arquiteto é o verdadeiro homem para tocar a obra. Melhor dizendo, para estar na obra, presente e opinante. Opinante e definidor!
Não! Não estou a falar em causa própria, seja minha, seja do Arquiteto. Falo em nome do bom andamento, do bom acabamento, do bom casamento dos tais Projetos Complementares (Estrutural, Instalações, etc), de uma boa ordenação das coisas da obra. Claro, para isso o próprio Arquiteto precisa se mobilizar, procurar conhecer os meandros e sortilégios das tais outras disciplinas que compõem o universo de uma construção, se habilitar para ocupar o lugar que, em outros centros mais adiantados, lhe é assegurado.
Simplificado que seja, meu raciocínio é lógico:
Se eu, o Arquiteto, projetei a edificação, vislumbrei todos os seus desdobramentos, consegui imaginar aquela idéia terminada, pronta e habitada, de cabo-a-rabo, quem mais poderia saber melhor como conduzi-la? Quem mais poderia entender as diversas interfaces entre os projetos técnicos e suas interferências com o Projeto de Arquitetura, gerador de toda essa “trapizonga” que se chama uma obra? Um outro profissional que pegou nosso projeto, deu uma olhada geral e lançou sua estrutura? Ou outro qualquer, que mal viu nosso projeto, nem acesso teve ao de estrutura, e fez seu projeto de instalações? Um, sem falar com o outro? Como pode dar certo?
Somente os deuses da sorte, abençoados e quase sempre presentes nas construções, conseguem desvendar tal mistério.
Divaguei, parece! Volto ao ponto.
Então, sem querer tirar o bom-bocado (será?) da boca dos “engenheiros de obra”, acho que o lugar correto do Arquiteto,não como uma Obrigação imposta a ninguém, mas como uma medida salutar e preventiva,é no acompanhamento da obra. Seja por ele projetada, preferencialmente, seja na de outro colega. Aos colegas Engenheiros, caberia uma sadia e necessária colaboração, nos aspectos mais puramente técnicos, mais detalhadamente específicos, mais imediatistas. Cabe esclarecer, tão importante quanto!”
Bom! Essa introdução à discussão, deveria / deverá gerar um monte de desdobramentos, algumas vaidades feridas, algumas discussões sobre campos de atuação invadidos, e, sobretudo, o ponto básico e crucial dessa matéria:
Quem pagaria a conta?
ACEITAM-SE (SUPLICAM-SE) SUGESTÕES E DEBATES!
*nos meus bons tempos de estudante, jovem Arquiteto, corria uma piadinha sobre o nosso perfil:
O Arquiteto, é um sujeito com olhar levemente distraído, duas ou três lapiseiras 6B no bolso da camisa, ou paletó, cheio de idéias diferentes. Algumas, inexeqüíveis!
Outros, ainda diziam que o Arquiteto era uma espécie, diferente, de lulu de madame.

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