Thursday, April 20

UMA QUESTÃO DOS “TEMPOS MODERNOS”

A reserva técnica deve ser regulamentada ou banida?
A prática de receber comissões ou percentuais pela especificação de marcas, produtos, sistemas ou pela indicação de lojas é alvo de polêmica tanto entre arquitetos quanto entre os fornecedores e, claro, os contratantes. Há os que defendam a prática, desde que seguindo alguns critérios. Há os que abominam a chamada reserva técnica e levam o assunto ao campo da ética profissional. De qualquer maneira, a polêmica traz à tona um tema delicado, que remeta talvez a uma necessidade de rever os aspectos a serem considerados na hora de cobrar pelos projetos. AU conversou com arquitetos, engenheiros, consultores e representantes de entidades ligadas à arquitetura para saber se, afinal, a reserva técnica deve ser regulamentada ou banida pelos arquitetos.


Pergunta levantada pela revista AU (Arquitetura e Urbanismo) da Editora Pini, que ouviu a opinião de vários profissionais.

Meto o meu bedelho no assunto e discorro sobre o que vivi, penso e acompanho, no que coloco como

UMA QUESTÃO DOS “TEMPOS MODERNOS”

Já houve um tempo em que os Projetos de Arquitetura eram entendidos como necessários e seus pagamentos, os tais dos honorários, permitiam que os profissionais, além de trabalharem para produzir bons resultados, ao final desses trabalhos, cliente satisfeito e missão cumprida, conseguissem ter o que se chamava, oh! coisa antiga e hoje desprezível, lucro. Mais simplesmente, alguma graninha sobrando ao final do trabalho, que permitisse que o/a “cara” pudesse dar uma viajadazinha de férias, trocasse o seu veículo, ou, ainda mais simplesmente, botasse as contas em dia. Sempre, mais para essa última opção.
Mas, tempo que passa, concorrência que se avoluma, clientes mais sovinas e “cautelosos”, numa boa minha gente! (dedicado aos nossos queridos clientes), os tais valores cobrados, os números da tabela do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), do próprio Sindicato, enfim, o que se conseguia cobrar, caiu lá pro fundo. Profundo, mesmo!
O que fazer, perguntaram todos? Todos, ai bem entendido, “nosotrosArquitetos e assemelhados, que viviam desse labor (ops!).
Estarrecimento geral, cabecinha à trabalhar, chegou-se a conclusão que os ditames(ops, again!) do IAB, talvez do Sindicato, do que se concebia de necessário para fazer um Projeto, e/ou uma Obra , devia ser depurado.
Nada de tanta especulação, EP (Estudo Preliminar), AP (Ante Projeto), PE (Projeto Executivo), detalhes em profusão, especificação de materiais, o Arquiteto fazendo a coordenação dos Projetos Complementares, etc. Exageros!
Fazia-se mister (de novo, ops!) simplificar o trabalho, no popular, diminui-lo, para “adequar” a encomenda ao preço estabelecido (melhor falando, diminuído). Valor pequeno, Projeto adequado. Dura realidade!

Mas, cabe perguntar: e a qualidade do nosso trabalho, pra onde é que vai? Como garantir que o que criamos, vai ser seguido, entendido. Será que nessa diminuição de desenhos, nessa compressão a que o Arquiteto foi obrigado a se adaptar, sobrou espaço conveniente para passar ao executante da obra tudo que ele precisa? Pessoalmente, duvido!
Mas, quase que num passe de mágica, o Cliente, iludido e iludindo, aceitou essa “mudança de rumo”, desde que o preço total diminuiu. No papo, todos, Arquitetos e Clientes, fingem que é a mesma coisa. Me engana que eu gosto, de parte a parte.
Costumo dizer que, entre o que projetamos, e o que se realiza, ficar igual, ao final, pode ser mera casualidade.

Mas, porra!, aonde é que entra a tal da RT? Nos viemos aqui pra conversar ou para discutir a RT? Vamos a ela, pois!

Eu, que sou antigo, na idade e na profissão, tomei conhecimento dessa “categoria”, lá pelo ano de 1962/63, no meu primeiro emprego, Módulo Imobiliária e Construtora, quando chegou ao escritório uma correspondência da Eternit, perguntando se a comissão (ainda se tinha a coragem de chama-la pelo seu nome próprio) pela compra do material, seria destinada ao Arquiteto, à Construtora, ou ao Cliente? No caso, o Arquiteto em pauta não era eu, sim o sócio da Construtora. Foi para a Construtora, sem qualquer constrangimento. O preço, de catálogo, não sofrera qualquer majoração, para a negociação. Tudo perfeito. Dentro dos conformes. Ninguém ofendido, seja o fornecedor, seja a Construtora.
Tempo que passa, valores de Projetos reduzidos, aquelas manobras pactuadas entre Clientes e Arquitetos para “adequar” valores, eis que surge o maior interessado, o fornecedor, atento e dissimulado, oferecendo a tal comissão. RT, "modernamente".
Claro, muitos profissionais, talvez assolados pelos compromissos de cada fim de mês, “sugestionam” os fornecedores, negociam, alguns induzem os comerciantes, e surgem as propostas, com o “cascalho”* destinado a suprir os valores negados pelos Clientes aos profissionais. “Cascalho” esse, conhecido de todos, Arquitetos e Clientes.
Aqui, vale uma importante ressalva: quando falo no Arquiteto, aprisiono-me ao nosso segmento. Dele não passo, por questão de escrúpulo. Fico na minha, na nossa. Isso porque, certamente o Construtor, que lida com os materiais mais vultosos, que faz compras mais volumosas, esse sim, pode ficar com a parte do leão.
Tentando dar um cunho, digamos, legalista à manobra, surge, impávido colosso, a Reserva Técnica, RT. Nome pomposo, quase científico, mas que no fundo, é a tal comissão que eu conheci nos idos de 1960, recém-formado, no meu primeiro emprego. E desse, ninguém esquece.

Aceitável, anti-ético, escabroso, normal, dadas as circunstâncias, mesmo colocando a nossa posição em cheque, nesse País do mensalão pode vicejar e vingar. Virar uma nova realidade, que embora vilipendiando o Profissional consciente, que dele pode se afastar, tornou-se do conhecimento de todos e é, muitas vezes,explorado pelo Cliente, que usa a RT como argumento na hora da negociação dos valores dos Projetos.

Acredito que tal prática, da RT, seja uma das facetas da conhecida falta de educação e cultura de nosso povo, ai todos incluídos, que dificilmente conseguirá ser abolida. Conviver com isso, sentir-se meio transgressor, meio marginal, ouvir de um fornecedor menos cuidadoso o aviso que “tem uma gordurinha pro senhor”, e algumas brincadeirinhas desagradáveis de Clientes, é uma coisa que cada um de nós tem de resolver, cada um, reitero, pra saber que rumo podemos dar para essa situação.
Complicado para a maioria, engraçado para alguns, tanto faz para muitos, sobrou pra nós!

E VOCÊ, COLEGA? JÁ PENSOU NO ASSUNTO? FALE-ME!
*nome “artístico” pelo qual é conhecido o famoso por fora, aqui na Serra.